segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O homem que fazia perguntas difíceis

O diretor Woody allen escreve sobre seu fascínio e paixão pela obra de Ingmar Bergman, morto há duas semanas, e fala sobre o que, afinal, aprendeu com o diretor
sueco

WOODY ALLEN/ THE NEW YORK TIMES

Recebi a notícia da morte de Bergman em Oviedo, cidadezinha adorável no norte da Espanha onde estou preparando um novo filme. Uma mensagem telefônica de um amigo em comum foi repassada a mim no set. Bergman uma vez me disse que não queria morrer em um dia ensolarado e, como eu não estava lá, só posso esperar que ele tenha conseguido o tempo ruim no qual todos os diretores conseguem o sucesso.

Eu já havia dito antes para as pessoas que têm uma visão romantizada do artista e vêem a criação como sagrada: no final, sua arte não salva você. Não importa o quão sublime são os trabalhos que você fabrica (e Bergman nos deu um cardápio variado de grandes obras- primas do cinema), elas não lhe protegem da derradeira batida na porta que interrompeu o cavaleiro e seus amigos no final de "O Sétimo Selo". E assim, em um dia de verão boreal em julho, Bergman, o grande poeta cinematográfico da mortalidade, não pôde prolongar seu próprio xeque-mate inevitável, e o melhor cineasta do meu tempo se foi.

Brinquei que a arte era o catolicismo do intelectual, isto é, uma crença desejosa no pós-vida. Melhor do que continuar a viver nos corações e nas mentes do público é continuar a viver num apartamento. É o que eu acho. E certamente os filmes de Bergman continuarão a viver e serão vistos em museus e na TV e vendidos em DVDs, mas, conhecendo-o, essa era uma compensação pequena, e tenho certeza de que ele teria estado muito feliz em trocar cada um de seus filmes por um ano adicional de vida. Isso teria dado a ele mais uns 60 aniversários para continuar fazendo filmes, um currículo criativo notável. E não tenho dúvidas de que é assim que ele teria usado seu tempo extra, fazendo "a" coisa que ele amava acima de todas as coisas: produzir filmes.

Bergman adorava o processo. Ele se preocupava pouco com as repercussões sobre seus filmes. Ficava contente quando apreciavam seu trabalho, mas, como ele me disse uma vez, "se não gostarem de um filme que fiz, fico chateado - por uns 30 segundos". Não estava interessado em sucessos de bilheteria, embora os produtores e distribuidores ligassem para ele com os números do fim de semana de estréia, que entravam em um ouvido e saíam pelo outro. Ele dizia: "No meio da semana, o prognóstico extremamente otimista deles já se reduziria ao nada". Gostava da aprovação crítica, mas nem por um segundo precisava dela, e, apesar de gostar que o público apreciasse seu trabalho, ele nem sempre fazia com que seus filmes fossem digeridos facilmente por eles.

Aqueles filmes que exigiam um raciocínio para entendê-los valiam bem o esforço. Por exemplo, quando você entende que as duas mulheres em "O Silêncio" de fato são dois aspectos antagônicos de uma mulher, o filme, que de outra forma seria enigmático, se abre encantadoramente. Ou, estudar filosofia dinamarquesa antes de ver "O Sétimo Selo" ou "O Rosto" certamente ajuda, mas os dons de Bergman como contador de história são tão fantásticos que ele conseguia manter uma platéia encantada e com a atenção fixa na tela mesmo com um material difícil. Ouvi pessoas saindo após o término de filmes dele dizendo: "Não entendi exatamente o que acabei de ver, mas me segurei na cadeira em cada quadro do filme".

A lealdade de Bergman era à teatralidade, e ele também era um grande diretor de palco, mas seu trabalho com filmes não era animado apenas pelo teatro. Ele recorria à música, à literatura e à filosofia. Seu trabalho investigou as preocupações mais íntimas da humanidade, geralmente criando poemas profundos em celulóide. A mortalidade, o amor, a arte, o silêncio de Deus, a dificuldade dos relacionamentos humanos, a agonia da dúvida religiosa, o casamento falido, a inabilidade das pessoas se comunicarem umas com as outras.

E também o homem era um personagem amoroso, divertido e jocoso, inseguro sobre seus imensos dons, seduzido pelas damas. Conhecê-lo não era entrar subitamente no templo criativo do gênio formidável, intimidador, sombrio e pensador que entoava insights complexos com um sotaque sueco sobre o destino triste do homem em um universo desanimador. Era mais que isso: "Woody, tenho esse sonho bobo onde eu apareço no set para fazer um filme e não consigo pensar onde colocar a câmera. A questão é a seguinte, sei que sou bom nisso e venho fazendo isso há anos. Você já teve esses sonhos nervosos?" ou "Você acha que seria interessante fazer um filme onde a câmera nunca se move um centímetro e os atores apenas entram e saem do enquadramento? Ou as pessoas apenas ririam de mim?"

Emoção da câmera parada

O que alguém diz ao telefone para um gênio? Eu não achava que era uma boa idéia, mas, nas mãos dele, penso que teria se transformado em algo especial. No final das contas, o vocabulário que ele inventou para investigar as profundezas psicológicas dos atores também teria soado absurdo para aqueles que aprendem cinema da maneira ortodoxa. Na escola de cinema (fui descartado bem rapidamente da Universidade de Nova York quando eu cursava cinema lá na década de 1950), a ênfase era sempre o movimento. Os alunos aprendiam que os filmes são imagens em movimento, portanto, a câmera deveria se mover. E os professores estavam certos. Mas Bergman colocaria a câmera sobre o rosto de Liv Ullmann ou o rosto de Bibi Andersson e a deixava lá e ela não se mexia e o tempo passava, e mais tempo, e uma coisa estranha e maravilhosa, peculiar ao seu brilhantismo, aconteceria. O espectador seria sugado para dentro da personagem e não ficaria entediado, mas emocionado.

Bergman, por todas as suas "loucuras" e obsessões filosóficas e religiosas, era um fiandeiro de contos nato que não conseguia deixar de entreter mesmo quando tudo o que ele pensava era dramatizar as idéias de Nietzche ou Kierkegaard. Eu costumava ter longas conversas telefônicas com ele, que falava a partir da ilha onde morava. Nunca aceitei seus convites para visitá-lo, porque viagens de avião me chateavam, e eu não confiava em vôos em aeronaves pequenas para algum ponto perto da Rússia, para o que eu previa ser algo como um lanchinho. Nós sempre discutíamos filmes. É claro que eu deixava a maior parte da conversa a cargo dele, pois me sentia privilegiado em ouvir seus pensamentos e idéias. Ele exibia filmes para ele mesmo todos os dias e nunca se cansava de assisti-los. Todos os tipos, desde filmes mudos até filmes com som. Para dormir, ele assistia a um tipo de filme que não o fazia pensar e relaxaria sua ansiedade, às vezes um filme de James Bond.

Como todos os grandes estilistas cinematográficos, tipo Fellini, Antonioni e Buñel, por exemplo, Bergman tem seus críticos. Mas, permitindo os lapsos ocasionais, os filmes de todos esses artistas têm ressoado profundamente nos corações de milhões em todo o mundo. De fato, as pessoas que melhor conhecem o cinema, aqueles que fazem o cinema - diretores, roteiristas, atores, fotógrafos, editores - têm pelo trabalho de Bergman talvez o maior temor.

Ética e disciplina

Como eu o louvei de forma tão entusiasmada nas últimas décadas, muitos jornais e revistas me ligaram quando ele morreu para fazer comentários ou dar entrevistas. Como se eu tivesse qualquer coisa de real valor para acrescentar à triste notícia além de simplesmente exaltar sua grandeza. Eles me perguntavam como ele tinha me influenciado. Não há como ele ter me influenciado, respondia eu, afinal ele era um gênio e eu não sou um gênio, e a genialidade não pode ser aprendida ou ter sua magia transmitida.

Quando Bergman apareceu nos cinemas "art house" de Nova York como um grande cineasta, eu era um jovem escritor de peças cômicas e comediante de clubes noturnos. Será que dá para o trabalho de alguém ser influenciado por Groucho Marx e Ingmar Bergman? Mas eu realmente consegui absorver uma coisa dele, uma coisa que não depende da genialidade ou mesmo do talento, mas algo que pode ser aprendido e desenvolvido. Estou falando do que normalmente é chamado bem livremente de ética de trabalho, mas que, na verdade, é a disciplina verdadeira.

Aprendi, a partir de seu exemplo, a tentar realizar o melhor trabalho que eu for capaz em um dado momento, nunca me rendendo ao mundo tolo de sucessos e fracassos ou sucumbindo ao papel reluzente de diretor de cinema, mas fazendo um filme e passando para o próximo. Bergman fez cerca de 60 filmes em sua vida; eu fiz 38. Pelo menos, se eu não conseguir chegar à sua qualidade, talvez eu consiga me aproximar de sua quantidade.

Um comentário:

Anônimo disse...

Um belo e rico relato.
São pessoas iluminadas que fazem por merecer o sucesso e o respeito que dedicam ao grande público e ao profissionalismo que exercem!
Abs e boa semana